segunda-feira, 20 de abril de 2020

A Arte nas cidades que queremos (re)abrir, por Helena Mendes Pereira, diretora da zet gallery

Em tempo de confinamento e de isolamento social, em que temos o privilégio de observarmos o espaço público sem a azáfama dos dias normais de que temos saudades, cria-se a oportunidade de um tempo de pensar as cidades e de que formas estas podem ser, cada vez mais, palco da criação artística e bandeiras da democratização do acesso à Arte. Há largos anos que o dst group (agora com a zet gallery como pivot nesta matéria) recorre ao seu know-how na engenharia e construção, colocando-o ao serviço de projetos de criação e implementação de obras de arte em espaço público, numa articulação plena com os artistas e com os organismos de gestão dos territórios. Esta consciência da urgência do contacto quotidiano com a obra de Arte como promotor da literacia, do conhecimento e, consequentemente, da construção de consciência crítica e de cidadania. A presença da Arte em espaço público é, assim, muito mais do que dotar o território do belo. É um ato político e simbólico que foram sendo sempre, ao longo da História, as transformações urbanas.

A história urbana mostra que às transformações de ordem económica e social se segue a adequação das estruturas, das formas e das imagens das cidades. Neste novo tempo que vivemos, é perentório que o espaço público seja cada vez mais um convite, não à profusão dos eventos, mas ao convívio moderado e seguro. A Arte pode ajudar, pode ter essa mensagem. Para a economia da cidade industrial, importava a proximidade a fontes de matérias-primas e de energia, a disponibilidade de capital, a força do trabalho de qualificação baixa ou média e um grande mercado local. Mas as exigências da cidade são radicalmente diferentes para a nova economia, que, segundo Peter Hall , deixou de ser uma “economia de informação” e se tornou numa “economia da cultura”, na qual a cultura se tornou na peça central da máquina reprodutiva do capitalismo, a sua nova mola propulsora . As transformações espaciais não são consideradas apenas na sua dimensão física, territorial, mas envolvem ponderações de ordem simbólica e muitos dos fenómenos sociais, cuja difusão já está desligada do espaço físico da cidade, são influenciados por fatores que têm uma origem urbana, sob o perfil material ou simbólico . O lugar, a imagem e a identidade tornam-se fundamentais. No mundo global, onde a modernização gerou a estandardização e a homogeneidade, muitas cidades industriais assistiram à diluição da sua identidade. A identidade está fortemente ancorada à imagem e à cultura local. Neste sentido, considera-se que é principalmente através da cultura que as cidades se podem individualizar, acentuando as suas identidades, marcando um lugar no panorama mundial. Por isso, as atuais políticas de intervenção urbana privilegiam planos e projetos que reforcem ou recriem a imagem e a identidade de cada cidade.
Helena Mendes Pereira

Para Huyssen, empreendedores e políticos procuram vender a cidade como imagem, procurando aumentar a receita com turismo de massa, convenções e aluguer de espaços comerciais. O ponto central, deste novo tipo de política urbana, são os espaços estéticos para o consumo cultural e é neste contexto que os investimentos em equipamentos e eventos culturais e na requalificação da imagem dos territórios a partir da Arte Pública se equaliza a investimentos em bens e serviços da dita primeira necessidade. Os processos de transformação e desenvolvimento dos territórios através da democratização do acesso ao belo por via da cultura e, em particular, da Arte Pública, proliferam-se por todo mundo, sendo que interessa destacar Pina Bausch (1940-2009) que criou em Wuppertal, em 1973, a Tanztheater Wuppertal Pina Bausch, uma companhia de dança e teatro que havia de colocar a pequena cidade alemã no mapa do que melhor se fez no mundo ao nível das artes performativas; San Sperate que é um pequeno lugar no enquadramento rural da região da Sardenha (Itália) com pouco mais do que 8000 habitantes e é o maior museu de pintura mural ao ar livre do mundo com mais de 400 murais pintados e mais de uma centena de esculturas; Inhotim, situada no Brumadinho, uma cidade com 38 mil habitantes, a 60 quilómetros de Belo Horizonte, cidade capital do estado brasileiro de Minas Gerais, começou a ser idealizada pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz a partir de meados da década de 1980 e constituiu-se hoje como uma dos maiores acervos de arte contemporânea do Brasil; a 100 km de Bilbao (Espanha), Chillida Leku, gerida pela fundação com o nome de Eduardo Chillida (1924-2002) ocupa o lugar de pequena Babilónia dos nossos dias. Localizado em Hernani, Guipúscoa, lugar distante dos centros mais cosmopolitas do País Basco e construído a partir de um dos maiores desejos do escultor e gravador Eduardo Chillida (criar um espaço museológico especial onde pudesse partilhar a sua obra e expor alguns dos seus melhores trabalhos) a sua peculiaridade é suficiente para ter inscrito esta pequena localidade no mapa da Arte contemporânea, acolhendo mais de duas centenas de milhar de visitantes por ano.

Mais de cem anos depois de Filippo Marinetti ter defendido no Manifesto Futurista (1909) a destruição dos museus, reduzindo-os a meros dormitórios públicos e a espaços para o carcinoma de professores, arqueólogos, guias e antiquários , assistimos a uma transformação radical no paradigma desta instituição. Dada a sua importância atual enquanto centro de urbanidade e civilização, o museu é considerado como a nova catedral do século XX . Entendido como polo de atração turística e protagonista da economia da cultura , é hoje um fator determinante na requalificação e reanimação urbana, conquistando um lugar de destaque nas nossas cidades. Não obstante, os museus de arte contemporânea, os seus edificados e por vezes os seus discursos herméticos promovem o afastamento dos públicos da criação artística contemporânea e potenciam a ideia de uma exclusividade de acesso e compreensão apenas para as elites. A obra de Arte pública, não só organiza o espaço público, condicionando positivamente o seu usufruto, como está disponível à contemplação e interação de todos, sendo desprovida de muros e bilheteiras. Nos últimos anos temos assistido, enquanto estratégia de comunicação para as massas, à aposta de vários museus (Rainha Sofia, em Madrid, por exemplo) com a implementação de obras de Arte públicas de grande envergadura, por períodos balizados, associadas a autores que, depois, podemos encontrar dentro do museu.

A arte pública tem sido uma área controversa por natureza. Não obstante, vários governos têm apoiado a sua realização, através da criação de programas de apoio às artes. A “política do 1%” foi um desses programas aplicados internacionalmente – Inglaterra, França e Estados Unidos – para promover a construção de obras de arte pública, utilizando para esse efeito 1% dos custos da totalidade de um empreendimento. Durante a década de 1980, o poder político norte americano, inglês, francês e espanhol compreendeu que o investimento em Arte pública, associado às políticas de restruturação urbana, poderia trazer benefícios económicos e sociais para as cidades. A renovação da imagem da cidade iria proporcionar um aumento do investimento privado, gerando novos postos de trabalho e, por conseguinte, dando um contributo determinante para crescimento da economia. À medida que a política de regeneração urbana progredia, tornava-se claro que a arte podia contribuir para a economia, para a criação de emprego e também para o turismo. Por toda a Europa temos vários exemplos desta realidade. No caso de Broadgate (Inglaterra), realizou-se uma reestruturação de grandes dimensões, que envolvia a criação de novas ruas, a remodelação de espaços públicos e a instalação de Arte pública. Planeado a várias fases, o projeto contou com a instalação de 24 obras de arte públicas de artistas locais e outros reconhecidos internacionalmente, tais como Barry Flanagan (1941-2009), Richard Serra (n.1939), Fernando Botero (n.1932) ou George Segal (1924-2000). A seleção de participantes foi criteriosa e envolvia a apresentação de maquetes e a definição clara de objetivos, que estabeleciam que os trabalhos tinham que “desafiar as atitudes das pessoas perante a arte” , sem apresentar, contudo, conteúdo ofensivo. O programa de Arte pública de Broadgate não só criou uma nova imagem do lugar, como contribuiu para uma melhoria do ambiente urbano, o que valeu ao projeto vários prémios e ser considerado o melhor espaço público dos arredores de Londres.
Intervenção artística ambiental octo_ _ _ _ de Pedro Tudela e Miguel Carvalhais na marginal de Esposende

A obra de Arte pública interpela-nos e faz-nos pensar, perturba-nos e faz-nos duvidar mas, sobretudo, é global e não restrita e ainda que não exista em toda a História da Arte nenhuma obra de Arte pública geradora de consensos, as estórias de apropriação identitária por parte dos locais multiplicam-se. Recentemente, no âmbito do projeto Esposende SmartCity, este município minhoto associou, tendo como parceiros o dst group, através da MOSAIC e da zet gallery, a Arte a esta transformação e, entre 2019 e 2020, o espaço público conta com uma instalação artística de Pedro Tudela (n.1962) e Miguel Carvalhais (n.1974), uma escultura de Volker Schnüttgen (n.1961) e uma intervenção de Alexandre Farto AKA VHILS (n.1987). Nenhuma destas obras de Arte públicas carecem da condição material do tal elevador social para serem vistas, além de serem uma afirmação do poder dos territórios, da sua ousadia e da sua soberania, já que o investimento em Arte e em grandes obras públicas no patamar do belo, foi e será sempre o caminho mais fácil para a eternidade e aquele que mais evangeliza as massas a uma ideia de sociedade e de futuro.


Helena Mendes Pereira, diretora da zet gallery










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