segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Bioconstrução e permacultura

A bioconstrução pretende minimizar o impacto ambiental das construções gerando desenvolvimento sustentável que não esgote os recursos do planeta, garantindo equilíbrio no presente e no futuro e favorecendo os processos evolutivos da Vida, assim como a biodiversidade.

Se algo nos ensina a história da construção ao longo dos tempos é que o ser humano sempre levou muito em conta a envolvente ambiental em que se encontrava e os recursos naturais à sua disposição no local, não utilizando um modelo tipificado de construção. Com o passar dos tempos, os avanços tecnológicos desviaram as nossas sociedades de tão notável adaptação. Do século XX à actualidade observamos que as características construtivas bem como os materiais utilizados se convertem em algo semelhante em qualquer parte do mundo, independentemente do clima e dos recursos disponíveis localmente. Afastámo-nos da benéfica e saudável interacção com a natureza.

Estudos médicos sobre saúde ambiental confirmam que a saúde humana está intimamente relacionada com o meio edificado. A síndrome do edifício enfermo é um conceito que surge no século XX ligado às construções actuais por se verificar que certos edifícios são causadores de doenças como, por exemplo, a fadiga crónica. As principais causas relacionam-se com a falta de ventilação adequada, com o excesso de concentração de produtos tóxicos nos materiais interiores e com a existência de campos electromagnéticos nocivos.

A responsabilidade social dos intervenientes no sector da construção é elevada e torna-se urgente sensibilizar para que todos estejam conscientes destes aspectos que têm de ser melhorados.
A bioconstrução trata-se também de um regresso às origens, através do uso de técnicas e materiais tradicionais, melhoradas pelo grande conhecimento de que dispomos actualmente. Por exemplo, em Portugal, temos grande tradição na construção com terra crua – taipa e adobe - no centro e sul do país. Já a norte, a pedra é a construção tradicional mais comum. Como acabamento encontramos tradicionalmente os rebocos à base de terra e os rebocos de cal.

Bom será recuperar este conhecimento, que durante a segunda metade do século XX se foi perdendo, aliando-o aos conhecimentos e materiais actuais de forma a melhorar o conforto e a qualidade de vida. Sabemos que um bom desempenho térmico dos edifícios é fundamental para reduzir gastos energéticos com climatização pelo que este é um ponto fundamental da bioconstrução. Materiais de isolamento térmico como a cortiça, a celulose proveniente de papel reciclado, o cânhamo, os fardos de palha, a lã de ovelha e até outros materiais reciclados são opções para isolar integralmente e eficazmente uma construção, mantendo as paredes permeáveis ao vapor de água, para que o ambiente interior permaneça nos níveis de humidade adequados ao conforto humano.

O ideal é que toda a pele do edifício – paredes, pavimentos e coberturas – seja bem isolada, sem pontes térmicas e estanque ao ar, mas permeável ao vapor de água.

A bioconstrução tira partido das técnicas passivas para aquecimento e arrefecimento, através de uma correcta orientação do edifício e das áreas envidraçadas, do correcto sombreamento nos meses quentes e da correcta ventilação. Por exemplo, uma estufa adoçada à construção funciona bem como uma área de transição exterior/interior. Durante os meses de frio permite ganhos de calor através dos envidraçados, sendo nos meses quentes aberta e sombreada. Estes espaços proporcionam ainda uma excelente possibilidade para plantar vegetação, por exemplo plantas aromáticas e pequenos hortícolas para consumo. Do mesmo modo, vegetação exterior de folha caduca é ideal para sombrear nos meses quentes.
A gestão da água é outro factor de extrema importância, fazendo uma correcta gestão para minimizar os gastos, armazenando as águas pluviais para que possam ser aproveitadas e tratando as águas cinzentas para que possam servir, por exemplo, para rega.

A gestão adequada da energia permite minimizar os gastos e recorrer a fontes de energias renováveis para aquecimento das águas e produção eléctrica.

O aquecimento no interior pode, por exemplo, ser feito utilizando queima de biomassa em lareiras/recuperadores eficientes que utilizam massa térmica e condutas de ventilação para reter e difundir o calor por todo o espaço.

Associados à gestão eficaz dos recursos e à utilização de materiais de baixo impacto ambiental, biodegradáveis e abundantes como os materiais naturais e os materiais reciclados, muitos outros aspectos estão relacionados com a bioconstrução. Por exemplo, a construção de espaços públicos que favoreçam as relações de vizinhança, a mobilidade, a segurança, a beleza, o aproveitamento eficaz das qualidades naturais do lugar, o desenho arquitectónico energeticamente saudável inspirado em formas orgânicas e em geometria sagrada, a ocupação ética do solo e a minimização da sua impermeabilização, a auto-suficiência local ao nível de energia, economia e produção alimentar biológica, a protecção contra o ruído, a minimização da contaminação electromagnética, etc.

Se este conceito é novo em Portugal, em muitos outros países europeus a bioconstrução já está estudada e difundida através de anos de experimentação. Por exemplo na nossa vizinha Espanha existem diversos centros dedicados à bioconstrução, realizam-se congressos, feiras e cursos. Também existem bastantes profissionais do sector que se complementam desde os fornecedores de materiais ecológicos, aos arquitectos e engenheiros responsáveis pelos projectos, aos construtores e artesãos.
Portugal está agora a iniciar este percurso com crescente entusiasmo e poderá beneficiar da experiência e conhecimento técnico já alcançado noutros países, nomeadamente ao nível dos testes e ensaios laboratoriais e normativas para boas práticas construtivas que demonstram o bom desempenho técnico face às exigências de segurança e saúde. Há uma crescente dinâmica em torno da bioconstrução que anima cada vez mais pessoas a abrir caminho neste sector: surgem novos materiais ecológicos, técnicas, oportunidades e cada vez mais espaços de formação.

É ainda necessário, abrir caminho para que a legislação portuguesa acompanhe estas práticas e atrair mais investidores que produzam e vendam materiais ecológicos, bem como, promotores imobiliários conscientes de que um bom futuro passa pela valorização da bioconstrução. Outro sector estratégico é a reabilitação pois, actualmente, muita da actividade do sector da construção passa pela intervenção no edificado existente. Em vez de demolir uma construção, melhor será recuperá-la, renovando apenas o necessário, dentro dos pressupostos da bioconstrução.

É também importante que os dirigentes entendam a importância da divulgação e da educação das gerações futuras e facilitem a dinamização de centros informativos com exposição de materiais e técnicas ecológicas, públicos ou privados, à semelhança do que acontece noutros países europeus, onde existem núcleos regionais para divulgar as tecnologias apropriadas localmente, prestando serviços de aconselhamento ao consumidor e projectistas.
Muitas das vezes, estes núcleos de construção ecológica estão interligados com outras áreas, partilhando o mesmo espaço físico, com lojas de produção justa e consumo ecológico, com associações locais de permacultura, agricultura biológica, desenvolvimento humano, entre outros.

O termo pode ser outro, podemos falar em construção ecológica, edificação sustentável, construção ambiental, etc. O importante é que a ideia se enraíze na nossa sociedade para reduzir o impacto ambiental que a construção tem actualmente e criar um futuro harmonioso.

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Artigo escrito por Catarina Pinto (catarinapinto@terrapalha.com), arquitecta licenciada em 2004 pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa, funda o Terrapalha (www.terrapalha.com) em 2008, um estúdio de arquitectura onde explora a construção lenta, cooperativa e artesanal, com materiais naturais, abundantes e locais. Colabora com o Engenharia e Construção desde Agosto de 2013.









2 Comentários:

Florbela disse...

Bom Dia. Estou a pensar remodelar o meu sótão e gostaria de recorrer a materiais reciclados e orgânicos. Poderei obter o contacto desta ou de outras empresas?

Fernanda MSS disse...

Bom dia. Saberiam indicar alguém em Minas Gerais que conhece a técnica por favor? Grata.

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