terça-feira, 2 de maio de 2017

"Um dia destes vamos ter défice de engenheiros civis e vamos ter de importá-los"

Esta frase despertou-me a atenção quando me deparei com a notícia do DN sobre os cursos com maior taxa de desemprego atualmente. Os dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciências mostram que as engenharias são o segundo curso com mais desempregados inscritos, sendo a Engenharia Civil a que contribui mais para a falta de empregabilidade. Segundo a Ordem dos Engenheiros, este cenário deve-se à crise económica recente e falta de obras públicas.

"Em termos de mercado de trabalho, a esmagadora maioria dos cursos e especialidades não chegam para as encomendas tanto para o mercado interno como externo. A absorção do mercado de trabalho é total; a exceção a este panorama é a Engenharia Civil", explica ao DN o bastonário da Ordem dos Engenheiros, Carlos Mineiro Aires, esclarecendo: "No setor energético, por exemplo, os licenciados não chegam para as encomendas. Ainda recentemente uma empresa alemã (Bosch) não encontrou engenheiros em número suficiente para preencher as 200 vagas de trabalho que oferecia. Há empresas da Noruega, Dinamarca, Bélgica, Reino Unido que fazem regularmente ações de recrutamento de engenheiros por cá. Isto já para não falar daquelas que fixam centros de competência em Portugal. No caso da engenharia civil existe procura sobretudo na Europa, mas também na América do Sul, no Médio Oriente, nos PALOP. Em Portugal, houve um período recente muito negativo, mas a reabilitação urbana e algumas obras públicas vão ajudando a mitigar um pouco a situação."

A qualidade da formação e custo de contratação relativamente baixo comparativamente com outros países são fatores que levam a que os engenheiros civis portugueses tenham a sua oportunidade nos mercados internacionais. Contudo, a diminuição de cursos de Engenharia Civil contrasta com a atual reanimação do mercado interno e levam a lançar o alerta: "Houve uma diminuição de cursos substancial, talvez em demasia. De tal forma que um dia destes vamos ter défice de engenheiros civis e vamos ter de importá-los."- diz o Bastonário da Ordem dos Engenheiros.

Mas estará o mercado da construção em Portugal preparado para receber quem vem de outros países, com condições superiores? Vai este panorama alterar-se com a chegada destes? Por que não mudar o panorama para os que cá estão?
Há quem tenha escolhido a profissão por vocação, há quem tenha escolhido pela oportunidade, pelas estatísticas, mas seja qual tenha sido a opção, há profissionais a trabalhar noutras áreas pelas condições que não lhe são concedidas na engenharia.

Os tempos “gordos” do passado levaram ao declínio da área mas sendo a construção importante para a sociedade em geral, não seria conveniente as associações profissionais adotarem outro tipo de postura perante a nova geração de profissionais e os motivarem para abraçar a Engenharia Civil?

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Artigo escrito por Catarina Vicente.









4 Comentários:

Tiago disse...

"Os tempos 'gordos' do passado levaram ao declínio da área...não seria conveniente as associações profissionais adotarem outro tipo de postura..." Sou da mesma opinião considero que as politicas até então adotadas foram de forma a responder a um mercado cada vez menos competitivo devido ao elevado número de obras, contudo este paradigma mudou e continua-se a usar as mesmas políticas (de 'facilitismo' quanto às exigências de construção). Num mercado onde o número de profissionais aumenta e é cada vez mais especializado .. vejo pouco esforço das associações em traduzir esses conhecimentos numa melhor construção. Gostaria de ver mais propostas de forma a aumentar o rigor da construção (através da legislação) de forma a empregar equipas maiores e aumentar a necessidade de profissionais mais qualificados.
Sei que à quem possa ver estas políticas de forma inversa pois estas acaba por aumentar o valor das obras num país com fraco poder de compra, mas não acredito que ao se estrangular ainda mais o mercado se consiga dar a volta à situação.
Por fim, sou da opinião que a única forma de defender e criar melhores condições para a profissão é a de aumentar o valor e a necessidade dos nossos serviços para a sociedade.

Cláudio Boino disse...

Vamos precisar de Engenheiros Civis para construir o quê? A quarta auto-estrada Lisboa-Porto? Mais uma circular em Castelo Branco? Reabilitar casas na Mouraria? Temos um par de obras para fazer (TGV para Madrid e Vigo e pouco mais) e temos de entender que faz hoje tanto sentido pensar em Engenharia Civil em Portugal como pensar a Zâmbia em Biologia Atlântica.

Eleuterio Ramalho disse...

É verdade o que diz, não há nem dimensão do País, nem "virgindade" da sua natureza que justifiquem grandes Obras de construção civil. no entanto, existem necessidades de Reabilitação e até construção de edifícios para albergar "Hospitais", centralização de serviços, etc, para os quais será necessário a construção de novos edifícios, pensados para a poupança de energia (de Aquecimento e Arrefecimento) e pensados também para albergar equipamentos de energia renovável (painéis Solares térmicos, fotovoltaicos, eólicos, etc...)

Vera louro disse...

A questão é para que servem as ordens dos engenheiros? Para fazer artigos de revista? Porque estão preocupados com o mercado daqui a 15 se não se preocupam em defender o mercado actual?Quantos engenheiros civis recebem o salário mínimo? 800€ para trabalhar em Lisboa? Conhecem a responsabilidade da profissão? Esta é a verdadeira crise e está é a razão da futura crise, não há respeito nem defesa pela profissão. Eu larguei a engenharia e como eu muitos outros que são se sujeitam às condições oferecidas nos dias que correm!

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