segunda-feira, 21 de maio de 2012

Casa Rietveld Schröder - Utrecht

A Casa Rietveld Schröder é o único verdadeiro exemplo construído conhecido de arquitectura De Stijl e um dos mais emblemáticos ícones da arquitectura da primeira metade do século XX. Construída em 1924, este projecto do holandês Gerrit Rietveld, rompeu radicalmente com os pressupostos da arquitectura tradicional, concebendo uma habitação que procura levar os conceitos de flexibilidade ao limite.

A encomenda destinava-se a Truus Schröder-Schräder e os seus três filhos, que depois da morte do marido, optou por trocar o seu espaçoso apartamento em Utrecht por uma casa feita à sua medida - mas este acabou por tornar-se um projecto de vida a dois e o grande ponto de partida da carreira de Rietveld enquanto arquitecto, até aí essencialmente designer de móveis - e bem conhecido por sinal, como se comprova pela fama das cadeiras Reb Blue ou Zig-Zag.

Schröder, mulher moderna e independente, sabia bem o que queria do seu novo lar e participou activamente com Rietveld na criação daquela que viria a ser a casa dos dois.
A Casa Rietveld Schröder é, mais do que um espaço habitável, um manifesto. Situada nos arredores de Utrecht, a servir de remate a um conjunto de casas tradicionais de dois pisos, não tem problemas em demarcar-se do que a rodeia, tanto pelas linhas arquitectónicas como pelos materiais utilizados.

As cores do movimento De Stijl estão patentes tanto no exterior como no interior, acentuando o carácter plástico do volume e lembrando um quadro de Mondrian em 3D. Os princípios de organização do espaço apostam na liberdade e na capacidade de adaptação.

Se o piso térreo, destinado ao escritório de Rietveld, sala de estudo, cozinha e sala de jantar, pode ser ainda considerado organizado de modo convencional, o piso superior revela o carácter único da obra. Aqui, onde encontramos os quartos e a área de estar, podemos ler o espaço de uma série de diferentes modos... um espaço aberto pode ser transformado num espaço semi ou totalmente compartimentado pelo movimento sucessivo dos painéis deslizantes e giratórios que acabam por funcionar como portas ou biombos que mostram ou escondem aquilo que queremos, permitindo adaptar o espaço às diversas funções a que este vai respondendo ao longo do dia - ou ao longo da vida. É aqui que vive o coração da casa.
Durante a visita guiada, um guia de luvas e pantufas vai movimentando os painéis, enquanto os visitantes, algo confusos e surpreendidos, exploram o espaço de audio-guia colado ao ouvido. É difícil perceber o sentido prático de todas estas possíveis alternativas de transformação do espaço, mas é fascinante imaginar o sem fim de possibilidades de vivência de um espaço tão flexível.

O mobiliário tem que ser reduzido e cuidadosamente fabricado à medida, a privacidade é relativa e os truques para melhor aproveitar o espaço sem comprometer a unidade arquitectónica são muitos: as portadas amovíveis que se escondem embutidas nas paredes, os apoios rebatíveis ao longo das janelas, os móveis que acumulam mais do que uma função, escondendo muitas vezes a sua função principal.

Mas ainda que o interior da Casa nos dê a sensação de estar a viver noutro mundo, a sua intensa relação com o exterior é outro dos pontos fortes do projecto. Todas as divisões têm contacto directo com o exterior - no caso do piso superior, através de varandas - e a janela de canto da zona de estar, que parece desafiar a gravidade estrutural, é provavelmente um dos pormenores mais conhecidos da história da arquitectura.
Truus Schröder viveu aqui com o seus filhos, com Rietveld e depois da morte deste, sozinha, até ela própria falecer, em 1985. Ao longo de praticamente 60 anos esta Casa evoluiu, respondendo às diferentes funções que dela exigiam, até se transformar num Museu, depois da reabilitação levada a cabo por Bertus Mulder.

Vale bem a pena a visita - imperdível para qualquer arquitecto ou apaixonado por arquitectura - e vale a pena também ficar a conhecer melhor a história por trás da obra. É sempre interessante quando um arquitecto com ideias tão radicais para o seu tempo desenha a sua própria casa, usando-a como expressão, não só dos seus princípios arquitectónicos, como do seu estilo de vida, não concordam?

[crédito das imagens: Ana Pina]

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Artigo escrito por Ana Pina, nascida no Porto em 1980. Formada em arquitectura pela FAUP desde 2004, divide agora as suas paixões entre a ilustração e a joalharia contemporânea. Colabora com o Engenharia e Construção desde Setembro de 2011.









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