domingo, 15 de maio de 2011

Lisboa está a afundar-se

Duas zonas da Grande Lisboa - uma perto da estação de metro das Laranjeiras, na capital, e outra na vila de Vialonga (Vila Franca de Xira) - estão a afundar-se alguns milímetros por ano, revela um estudo internacional, que conta com a participação, pela parte portuguesa, de cientistas do Instituto Superior Técnico (IST) e do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC).

Embora não seja grave por agora, o fenómeno pode vir a ter consequências como danos nas casas, em esgotos, linhas de abastecimento de água, electricidade e gás, estradas e caminhos-de-ferro.

A descoberta na Grande Lisboa, num projecto europeu iniciado em 2004 para detectar a deformação do terreno em diferentes cidades europeias através de imagens de satélite, revelou-se uma surpresa. É a primeira vez que o afundamento do solo - ou subsidência - é detectado numa zona urbana em Portugal, escreve a equipa de cientistas num artigo publicado, na terça-feira, na edição online da revista Remote Sensing of Environment. "Como era uma situação com impacto, levámos mais tempo a confirmar", conta Sandra Heleno, geofísica do IST e primeira autora do artigo. "Só quando estávamos convencidos de que a subsidência estava mesmo a acontecer é que publicámos [os resultados]."

Os dados indicam que é na zona de Vialonga - por onde passam as duas principais ligações terrestres entre Lisboa e o Porto, a Auto-Estrada n.º 1 (A1) e a Linha do Norte da CP - que o afundamento tem sido mais intenso. Dentro da zona afectada ficam as portagens da A1 em Alverca.

Entre 1992 e 2003, o solo afundou-se, em média, 13 milímetros por ano em Vialonga - o que dá cerca de 15 centímetros nesses 11 anos, na parte mais afectada. Outros dados para Vialonga indicam que a velocidade do fenómeno, entre 1992 e 2006, foi de nove milímetros por ano, em média - o que significa que, nesses 14 anos, a zona se afundou cerca de 13 centímetros.

"O facto de Vialonga ser uma zona atravessada por linhas importantes, como a auto-estrada e a ferrovia, e por ser mais próxima do Tejo, em que o risco de inundações pode agravar-se com a subsidência, mostra como é importante dar atenção ao problema", diz Sandra Heleno. "Mas não quero causar alarme."

Para Vialonga, uma zona industrializada, a equipa conseguiu determinar a causa do problema: a exploração em excesso de águas subterrâneas. "Várias fábricas, de empresas internacionais de bebidas, de produtos químicos e agrícolas, operam na região. Geralmente, estas indústrias têm consumos elevados de água", escreve a equipa, acrescentando que as três empresas mais importantes gastam, pelo menos, nove milhões de metros cúbicos de água por ano.

Em 27 anos, o nível das águas subterrâneas na zona de Vialonga baixou 65 metros. "Encontrámos uma relação espacial entre o fenómeno da subsidência e a diminuição do nível da água em furos", realça Sandra Heleno. "A descida da água nos furos indica diminuição da pressão nas camadas geológicas que armazenam a água subterrânea, e esta diminuição de pressão é que causa o afundamento do solo", explica a geofísica.

Em relação à cidade de Lisboa, é perto da estação de metro das Laranjeiras que o afundamento do solo é mais acentuado. Entre 1992 e 2006, a uma média de seis milímetros por ano, atingiu os oito centímetros. Mais lento do que nas Laranjeiras, ao ritmo de quatro milímetros por ano, o fenómeno também afecta a zona da cidade universitária. "Em Lisboa, não classificaria a subsidência como grave. É uma situação em que é necessário dar atenção, quando ainda é possível aplicar medidas de redução do risco de forma atempada", diz a investigadora.

Na cidade de Lisboa, o abatimento do solo tem abrandado nos últimos anos. Entre 2003 e 2010, as Laranjeiras passaram a afundar-se à velocidade de cerca de dois milímetros por ano, refere Sandra Heleno, que já apresentou estes resultados numa conferência internacional. "É uma boa notícia."

Desconhece-se a razão por que Lisboa está, naquela zona, a abater mais lentamente, tal como se desconhece sequer a causa do fenómeno em si. A hipótese de que as construções estariam na origem do problema, provocando a compactação das camadas superficiais do terreno, não foi confirmada. "Não encontrámos uma relação entre a evolução da construção desde o início dos anos de 1980 e a subsidência."A hipótese da exploração excessiva das águas subterrâneas vai agora ser estudada no caso da capital - "embora seja menos provável, por não ser uma zona industrial", diz a geofísica.

Tanto em Lisboa como em Vialonga, a área total afectada anda à volta de seis quilómetros quadrados (à volta de 800 campos de futebol). "Estas zonas têm de ser monitorizadas, agora que não temos qualquer dúvida de que há subsidência."

O LNEC considerou vários cenários para evitar o agravamento do problema. "Um dos cenários era a paragem completa da extracção de água na zona de Vialonga em 2010. Haveria um abrandamento da subsidência em 2015", refere Sandra Heleno.

O problema na Grande Lisboa junta-se assim ao de outros casos mundiais, como Las Vegas, Los Angeles, Seattle ou Bolonha. O mais paradigmático é o da Cidade do México, que se afunda quase meio metro por ano.

Fonte: Público









1 Comentário:

Anónimo disse...

Os municipios da grande Liboa nunca tomar medidas necessárias das águas sobterrânias dessa zona

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